Entrevista com André Fran sobre Crise Migratória na Europa

Autor e apresentador participou do Projeto Atualidades, na Feira Literária do Colégio Sagrado Coração de Maria-RJ

por Natasha Franco, assessora de comunicação estratégica do CSCM-RJ

andre-fran-no-cscm-rj (3)A Feira Literária do Colégio Sagrado Coração de Maria do Rio de Janeiro (CSCM-RJ), no dia 21 de maio, foi permeada por cultura em forma de histórias, exposições, peças teatrais, shows e palestras. No espaço multimídia da escola, educadores, pais e alunos do 9º ano ao Ensino Médio aguardavam ansiosos pelo debate sobre “Crise migratória na Europa”, com André Fran. Ele é autor do livro “Não Conta Lá Em Casa – Uma Viagem Pelos Destinos Mais Polêmicos Do Mundo” e apresentador dos programas “Não Conta Lá Em Casa”, exibido pelo canal Multshow, e “Que Mundo é Esse”, pela Globo News.

CSCM-RJ: Você começou o encontro falando a respeito dos locais que já tinha explorado, como África do Sul, Tailândia, Iraque, Ucrânia e Turquia, entre tantos outros, com seus dois amigos, Felipe Ufo e Michel Coeli. Poderia compartilhar alguns dos momentos de destaque durante estas jornadas?

André Fran: Durante as gravações, fomos à Chernobyl, depois que liberaram a entrada. Lá, chegamos o mais próximo que pudemos do reator explodido. Visitamos a Indonésia após o tsunami. Conhecemos também o povo do Curdistão, que luta pelo direito de ter um país. Fomos ao maior lixão eletrônico do mundo, que produz uma poluição muito grande, que se espalha até para outros países. Em tempos de superprodução e desperdício, os ditos desenvolvidos usam brechas e isso tudo vai para esse lugar. No entanto, queríamos também mostrar uma outra África, pouco divulgada. Conhecemos pessoas que estão fazendo a diferença naquele lugar. Gravamos um programa sobre o combate a epidemias de ebola, chicungunha e zika no Senegal, onde se encontram os principais cientistas sobre o assunto, que inclusive estão ajudando muito a outros países.

CSCM-RJ: Quais são os objetivos dos programas?

André Fran: Um dos objetivos principais dos projetos é fazer o público telespectador avaliar os diferentes cenários sociais e políticos do mundo, porém de maneira mais ampla. Acreditamos muito na força desse questionamento. Queremos comprovar se aquilo em que a gente acredita é isso mesmo. Tentamos influenciar esse questionamento a respeito de temas como preconceito e limites territoriais.

CSCM-RJ: Por que o sentimento de solidadriedade foi um dos incentivos para a realização dos programas?

André Fran: O interesse era conhecer, mas queríamos ajudar de alguma forma, mas somos só três pessoas na equipe. Misturamos jornalismo com reality show porque informamos ao mesmo tempo em que vivenciamos aquilo tudo. Nós demos carona para refugiados. Olha que doideira isso! Estrangeiros e ainda dando carona para refugiados? Mas é humanamente impossível você não se render àquele cenário e ajudar! Eles iam, de madrugada, andando quilômetros para tentar ultrapassar as fronteiras.

CSCM-RJ: Por qual motivo, na Grécia, você e seus companheiros se surpreenderam ao presenciar a chegada de muitos barcos?

André Fran: Essa crise já existe há muito tempo, mas somente ganhou visibilidade porque foi para a Europa. Quando estávamos a caminho, nos perguntávamos: será que vamos ver algum barco chegando? Nós vimos no mínimo dez barcos atracando ali por dia! Era toda hora! Sem enfermagem, primeiros socorros, salva-vidas, nada. Somente voluntários. Tinha hora que chegava barco e estávamos só nos três ali.

CSCM-RJ: Poderia nos revelar mais detalhes da viagem feita ao Iraque?

André Fran: Na fila de turistas para entrar no país, só havia três pessoas: meus dois amigos e eu. Pelo menos ingressamos de forma rápida (risos). Nós conseguimos mostrar um Iraque verdadeiro. Um Iraque com resquícios de guerra. No para-brisas do táxi que pegamos logo no desembarque, havia um buraco de bala enorme. Depois, a Babilônia estava fechada, tinha sofrido um atentado no dia anterior. Mesmo assim insistimos e conseguimos entrar no palácio de Saddam Hussein, que tinha sido tomado pelos americanos na época da guerra. Éramos só nos três num palácio enorme. A janela do Saddam era enorme, do tamanho dessa sala, de onde pudemos ver a Babilônia inteira. Detalhe: com vários heliportos construídos pelos americanos, bem ali no berço da civilização. Dá pra acreditar nisso?

Mãe do aluno Felipe, da 1ª série do EM, Celeste Araújo: Vocês já foram foram à Síria?

André Fran: Síria, ainda não. Mas gravamos um programa sobre o povo curdo, que ocupa países próximos. Vivenciamos as eleições turcas parlamentares, quando pela primeira vez os curdos teriam representantes no parlamento. Mostramos a festa nas ruas da Turquia. No Iraque também tem uma região dos curdos. A tendência é que se separem devido à independência econômica, ao petróleo existente na região e ao investimento estrangeiro. Possuem até presidência. Só falta oficializar. Não fomos à Síria e nem ao Irã porque naquele momento não faziam parte da história que estávamos contando.

Aluna da 2ª série do EM, Isabela: Como se sente quando volta dessas viagens?

André Fran: Na volta, no avião, que não tem internet, é o momento do baque. É nessa hora que eu me organizo mentalmente, mesmo abalado. Que eu paro pra escrever e penso em como dirigir o programa.

Aluno do colégio e hoje estudante de Direito da UFRJ, Bernardo Camargo: Por qual motivo nunca fizeram uma produção na América do Sul?

André Fran: A região já faz parte dos planos da equipe. Nossos vizinhos desconhecidos, como Suriname e Haiti. As pessoas escutam Suriname e perguntam se fica na Ásia. São áreas que estão em nossos planos, sim.

CSCM-RJ: Qual mensagem final você deseja deixar para os nossos jovens?

andre-fran-no-cscm-rj (1) André Fran: Se três amigos conseguiram alcançar seus objetivos, independentemente das condições ou da distância, isso significa que todos são capazes de realizar seus sonhos. A gente conhece desde ex-terrorista e líder guerrilheiro a Nobel da paz, ministros e presidentes, entre tantas outras personalidades. É possível. Se você se dedica e acredita, você consegue fazer a diferença. Quem quiser assistir aos programas do “Que Mundo É Esse?” e “Não Conta Lá Em Casa”, basta acessar os canais da Globosat Play na internet. Tem tudo lá. Os dois são diferentes, em canais diferentes, mas com um mesmo DNA. Acreditamos muito na questão de fazer a diferença com os nosso programa.

Conversamos também com a professora de História do Ensino Médio do CSCM-RJ, Carla Meliga, que estava presente e apreciou muito o debate. Confira a entrevista a seguir.

CSCM-RJ: Para você, qual foi um dos momentos de maior destaque durante a apresentação do André Fran?

Professora Carla Meliga: Quando ele falou falou a respeito da condição financeira dos refugiados. Realmente, a maioria dos imigrantes, principalmente os sírios, que vão para os países ditos de primeiro mundo na Europa são pessoas com profissão, são mais qualificados. Quem chega de barco, mesmo em condições precárias, precisou pagar pelo translado de 40 km, que é caríssimo. Os pobres chegam a pé pela Turquia e tentam a vida nos países vizinhos, como Irã ou Jordânia. O que eles querem é sair do conflito na Síria. Muito interessante a parte do filme apresentado na palestra, quando eles perguntam a um afegão recém-chegado ao litoral grego o que ele espera, e ele responde: “um lugar que tenha paz”.

CSCM-RJ: O que você pensa a respeito da divulgação da crise dos refugiados?

Professora Carla Meliga: A questão dos refugiados, de guerras e ditaduras, conforme o próprio André falou, sempre existiu. A grande dimensão de agora é porque a crise chegou ao primeiro mundo europeu. Não se lembram de Kosovo? Ou do massacre da Sérvia, que gerou muitos refugiados e não teve a mesma repercussão? Outro ponto que precisa ser avaliado é a França, berço da igualdade, fraternidade e liberdade, não querer os refugiados. Que mundo é esse?

CSCM-RJ: O próximo projeto de viagem do grupo é para os Estados Unidos. De acordo com André, o objetivo é conhecer locais que o capitalismo arrasou.

Qual é a sua opinião sobre? Professora Carla Meliga: É um aspecto bastante interessante a ser analisado. Conforme ele disse, há cidades que eram prósperas, como Detroit e Chicago. Eles poderão comparar o que deu certo e o que deu errado no sistema capitalista, dentro do coração do próprio sistema que o criou.

CSCM-RJ: A palestra integra a programação do Projeto Atualidades, desenvolvido com os alunos do no Ensino Médio do CSCM-RJ. Quais dicas de temas para o ENEM e vestibulares os estudantes puderam verificar, a partir desta oportunidade?

Professora Carla Meliga: Como nos anos anteriores, migrações, refugiados sírios, primavera árabe, a crise Iraque x EUA e a situação do leste europeu são assuntos que certamente serão abordados. Para 2016, sugiro verificarem sobre as novas políticas de imigração na França e na Alemanha. Como esses países absorverão essa massa migratória?

A coordenadora pedagógica geral do CSCM-RJ, professora Rosana Cattete, também comentou a participação de André Fran. “Para desenvolver o senso crítico e aumentar o repertório cultural de nossos alunos, investimos esforços no sentido de oferecer aulões e palestras com temas que emergem da atualidade. É a segunda vez que recebemos o palestrante e escritor André Fran e, nas suas duas apresentações, pudemos constatar que estar antenado com a situação do mundo é o caminho certo para todos os estudantes que pretendem se sair bem no ENEM. Essa experiência é extremamente importante para o aluno obter mais recursos na hora de escrever seus textos.”

O momento foi muito apreciado por todos e o palestrante ficou de retornar para participar de mais uma edição do projeto. Ficamos todos, ansiosamente, no aguardo.