Missão Jovem SCM: saiba como foi um de nossos intercâmbios solidários

por Isabella Loureiro

IMG_1040A Rede Sagrado – Colégios Sagrado Coração de Maria realiza anualmente a Missão Jovem SCM – Intercâmbio Solidário, considerada uma das mais importantes estratégias de aprimoramento do protagonismo juvenil, do autoconhecimento, da elaboração do projeto de vida, da vivência da fé e da alteridade entre os adolescentes e jovens. Trata-se de um projeto que leva estudantes e educadores  para vivenciar outras realidades, costumes e maneiras, proporcionando a educação do olhar para o outro e a vivência da partilha, motivando o desenvolvimento de iniciativas proativas frente a problemas políticos e sociais contemporâneos.

A ação envolve jovens estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental à 3ª Série do Ensino Médio, educadores do CSCM, bem como jovens e adultos das comunidades que acolhem o trabalho que, em sua essência, fundamenta-se na prática da solidariedade e do estabelecimento de parcerias.

A oportunidade de, durante alguns dias, inserir-se como voluntário em uma realidade IMG_1189social diversa da sua tem educado muitos jovens estudantes para o exercício da cidadania. Além dessa perspectiva, por utilizar uma abordagem interdisciplinar e transdisciplinar, a Missão Jovem SCM – Intercâmbio Solidário se torna mais uma estratégia de formação acadêmica, pois favorece a aplicação direta ou indireta dos conhecimentos das diversas áreas nas ações de intervenção e ou observação da realidade, além da construção de novos conhecimentos a partir da vivência de outras realidades e costumes. Acerca disso, Sérgio Andrade, Coordenador do Serviço de Orientação Religiosa (SOR) do Colégio Sagrado Coração de Maria de Belo Horizonte (CSCM-BH) complementa: “Assim como a excelência acadêmica é fruto de aprendizagens, a educação para a solidariedade também requer processos de formação e experiências, que acontecem no dia a dia das relações”.

missionarios-conhecendo-a-vida-das-lavadeiras-de-janaubaNas três últimas edições da Missão Jovem SCM – Intercâmbio solidário (2013, 2014 e 2015) os estudantes e professores do CSCM-BH vivenciaram a experiência de intercâmbio em Curvelo-MG, no entorno do projeto socioeducativo mantido pelas Religiosas do Sagrado Coração de Maria. Em 2016, a Missão Jovem completou 15 anos e os missionários retornaram à cidade onde tudo começou: Janaúba, no Norte de Minas.

Durante seis dias, entre 8 e 14 de julho, 26 missionários – estudantes e educadores do CSCM-BH – foram acolhidos pelas comunidades de Janaúba, iniciando a experiência do intercâmbio solidário. Os missionários se dividiram em grupos e, a cada manhã, elaboravam o planejamento de ações a serem realizadas ao longo do dia. A programação incluiu visitas às famílias, escolas e asilos das comunidades, além de momentos formativos junto aos educadores e jovens, atividades recreativas com as crianças, dentre outras intervenções solidárias.

Assim como nas edições anteriores, antes de retornarem para suas rotinas em Belo IMG_1166Horizonte, os missionários se reuniram para um momento de partilha e avaliação geral das vivências desse intercâmbio, quando socializaram as experiências, sensações, percepções, motivações e lições que a Missão Jovem – SCM proporcionou para suas vidas. A conquista de novos aprendizados e valores a partir da vivência com o outro foram alguns dos aspectos mais citados neste momento de encerramento.

Para a comunidade de Janaúba, o intercâmbio foi igualmente transformador. Para líder da comunidade Santa Cruz, Elismirtes Maria de Morais, foi uma experiência nova. “Quis mostrar uma realidade diferente, mas lamento não ter tido todo o tempo disponível para acompanhar os jovens. Para nossa Paróquia, foi muito rico”.

A jovem Vanessa Marques, também de comunidade de Santa Cruz, reuniu todos os seus sentimentos no depoimento a seguir:

Alegria, coletividade, aprendizado, fé, amor, muitas são as palavras que posso usar para definir o que foi a Missão Jovem, mas uma que insiste em vir ao meu pensamento toda vez que lembro dessa experiência é gratidão. Sou muito grata por tudo que vivi no decorrer desses 6 dias.

Sou de Janaúba e já participei de algumas missões aqui na minha cidade e em outras também, mas nunca havia vivenciado uma com tamanha disposição e generosidade de todos os envolvidos. Foi bonito de ver uma juventude com um senso de ajuda tão grande, a preocupação com o outro. Sorrisos eram inevitáveis, todos juntos levando fé, esperança e palavras de conforto para aqueles que precisavam. A troca que tivemos foi algo único! Aprender na simplicidade torna tudo mais bonito e foi isso que aconteceu. A satisfação no olhar dos moradores ao receberem nossas visitas foi algo extremamente emocionante. Os encontros, as orações, o louvor… Tudo feito com imenso carinho, fez com que a Missão se tornasse ainda mais especial.

Agradeço a Deus por ter me dado a oportunidade de participar ativamente. Aprendi muito e espero ter ensinado também. Até breve! Espero encontrá-los logo! Um grande abraço.

 

Aprendizagem significativa embasa nova proposta curricular de História

Em junho, a equipe do Centro Administrativo Educacional da Província (CAEP), coordenadoras pedagógicas gerais, coordenadoras pedagógicas de segmento e alguns professores de História das cinco unidades da Rede Sagrado se reuniram em Belo Horizonte para dar continuidade à revisão da proposta curricular da disciplina, iniciada há dois anos. Convidamos os professores Eduardo França Paiva* e Adriane Vidal Costa**, ambos da UFMG, para acompanharem o encontro e para comentarem a proposta. Entre os aspectos inovadores do novo currículo, está o trabalho com uma proposta de aprendizagem significativa, com menos memorização dos conteúdos, mais problematizações e análise de conceitos.professores-eduardo-e-adriane

Em entrevista para o blog da Rede Sagrado, os professores opinam sobre o viés da nova proposta curricular de História.

BRS: Qual é o aspecto mais inovador na nova proposta curricular de História?

Adriane: Vejo que é trabalhar com uma proposta de aprendizagem significativa, com menos memorização dos conteúdos de História, mais problematizações e análise de conceitos. Isso rompe com uma visão mais tradicional do ensino de História e obviamente apresenta novos caminhos para uma proposta curricular diferenciada.

Eduardo: Acho que há alguns aspectos, não diria inovadores, mas atuais, em torno do se pensar História. O melhor da proposta é que estamos tentando implementar uma percepção, uma discussão histórica com uma perspectiva de diversidade, de pluralidade e de problematização do acontecimento e do processo histórico.

BRS: Seria um rompimento com aquela disciplina que aprendemos na escola há alguns anos?

Adriane: Isso.  A História que aprendíamos na escola há alguns anos era uma História mais vinculada ao conteúdo e aos fatos, sem muita problematização e muito pautada na memorização. Passar a trabalhar com aprendizagem significativa, portanto, significa que o conhecimento precisa ter sentido para aquele que está aprendendo.

BRS: Então isso envolve o desenvolvimento da capacidade de análise do estudante. Não apenas de decorar o que aconteceu?

Eduardo: Exatamente. Não existe essa perspectiva de decorar fatos, decorar nomes, decorar datas. A perspectiva é de compreensão do processo histórico que se desenvolve no tempo e no espaço, mas que é lido também no tempo e no espaço, seja no momento em que ele está ocorrendo, seja posteriormente. A História com H maiúsculo, ou seja, a disciplina História, aquilo que o historiador escreve. Compreender o ocorrido, a análise sobre esse ocorrido é a perspectiva de ensino mais relevante desta nova proposta curricular da Rede Sagrado.

BRS: Nesta perspectiva, então, o ensino de História dialoga também com outras disciplinas, como Sociologia, Filosofia e os próprios fatos históricos em si.  É este o grande alinhamento com a prova de ciências humanas do ENEM, por exemplo?

Eduardo: É possível que sim, a partir do momento em que nós entendemos esse ensinar História associado a um campo mais amplo de formação. O diálogo com outras áreas, como a Sociologia, a Filosofia, a Geografia se dá, principalmente, quando nós operamos os conceitos na História. A História não é uma ilha que se basta, que se isola, ela é resultado justamente dessas conexões com outras áreas.

BRS: Qual a contribuição do componente curricular de História para a formação dos alunos?

Eduardo: Eu entendo que é mais do que fundamental. É imprescindível estudar a História não apenas na sequência de fatos ou na linearidade. Não é isso que nós queremos. Queremos ver a História como um campo específico do conhecimento, que traz aos alunos a possibilidade da compreensão de como homens e mulheres atuam, socialmente, e em todas as dimensões dessa atuação. Por isso, a questão conceitual é tão importante nessa nova proposta, ela nos ajuda a entender como, ao longo do tempo, aquelas atuações histórias se transformaram também em objeto da História como campo científico, campo do conhecimento, disciplina. Então o conceito é quase um elo que liga o ocorrido à análise desse ocorrido, sendo fundamental na formação dos alunos. Uma formação sem essa habilidade de entender no tempo e no espaço as ações humanas é uma formação falha, a meu ver.

BRS: Quais seriam os conceitos fundantes da proposta?

Adriane: Os conceitos fundantes da proposta de História são agente, espaço e tempo, trabalhados conjuntamente. São eles que fundam, de alguma forma, o conceito histórico e por isso precisam estar diluídos em toda a proposta de ensino. Eles irão aparecer na Educação Infantil, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, perpassam toda a proposta curricular. Consequentemente, em torno desses conceitos fundantes, há também conceitos estruturantes, que não são menos importantes.

BRS: E quais são os conceitos estruturantes?

Adriane: São vários. E eles se repetem, obviamente, em alguns segmentos. São muitos, porque eles estruturam não só o conhecimento histórico, mas a própria forma de se ensinar História.  Temos conceitos estruturantes como cultura, política, imperialismo… Enfim, uma grande variedade.

BRS: Como vocês relacionam o entendimento da História aos debates que presenciamos em torno da luta pelas igualdades social, racial e de gênero?

Adriane: É fundamental ter um conhecimento da nossa História. Hoje, é comum acompanharmos debates embasados apenas por noções do senso comum. Uma das importâncias que a História tem é a de ajudar a embasar e a dar argumentos consistentes para esses debates. Para que eles não fiquem apenas na superfície dos temas.

Eduardo: Penso na perspectiva de se compreender historicamente como essas questões foram formuladas, operadas, propostas, modificadas e debatidas. Enfim, a nossa perspectiva de ensino de História parte do pressuposto de que é preciso compreender historicamente como todas essas ações e reações são construídas, elaboradas e praticadas. Por isso, a História dos conceitos é tão importante para analisarmos em diferentes tempos e diferentes espaços como todas essas questões aparecem, reaparecem, se distanciam ou somem.

BRS: Quais os benefícios da construção coletiva para esta proposta?

grupo-de-discussao-proposta-curricular-de-HistóriaAdriane: Essa construção é fundamental. A participação dos professores e dos pedagogos nesta proposta garante, não só a qualidade do resultado final, mas uma participação efetiva no fomento aos debates que irão aparecer depois, na proposta final. Isso é muito interessante e é uma iniciativa que partiu da própria Rede Sagrado.

Eduadro: Isso é o princípio básico, porque espera-se que resulte daí um currículo que seja adotado de bom grado pelos professores. Então, a melhor maneira de fazer com que este novo currículo seja um instrumento importante no cotidiano do ensinar História é envolver todos esses agentes: professores, pedagogos, alunos, pais de alunos, convidados a opinar sobre ele. Enfim… Todos que compõem o ambiente escolar. O currículo, assim, será de todos.

BRS: Adriane, como professora do curso de História da UFMG, qual o seu principal desafio na formação de novos educadores da área?

Adriane: O principal desafio é mostrar como a nossa profissão ainda é importante. É um  grande desafio mesmo, mostrar para os alunos que estão iniciando o curso de licenciatura que a profissão, apesar de não ser muito valorizada, é extremamente dignificante e importante para a sociedade. Faz parte, inclusive, do trabalho do professor, mostrar como é importante a sua função na escola, nos grupos, na sociedade de forma geral.

BRS: Eduardo, para você que estuda Iconografia, qual a contribuição desta área para o trabalho de revisão da proposta curricular de História?

Eduardo: É importante dizer que quando falamos de Iconografia, não falamos de sinônimos de ilustração, de figurinha, de imagem pueril, de imagem solta. A Iconografia é um campo específico de estudos das imagens, dos ícones. É a escrita do ícone. Há toda uma metodologia e um corpus conceitual a partir dos quais essa área é trabalhada, é pensada. A grande questão é que, de uns tempos para cá, há uma resistência menor por parte dos historiadores e dos professores de História em trabalharem com as imagens como fontes e como objetos de estudo da História, como fontes do historiador. Portanto, há certa paixão entre os professores de História e os historiadores por essa fonte que, durante muito tempo, foi tratada só como ilustração ou como figurinha. Quando a Iconografia se transformou numa fonte, em documento que expressa as realidades históricas, os agentes históricos, os comportamentos, as atitudes, as ações e os projetos, ela passou a ter outro status. A imagem ficou algo muito mais importante. E isso tem realmente chamado muito a atenção dos historiadores, dos professores de História e também dos alunos, porque cada vez mais nós vivemos um mundo imagético, profundamente imagético. Então é um diálogo novo que se estabelece também na sala de aula, com e entre esses alunos, que são parte desse mundo absolutamente imagético, freneticamente imagético.  Alunos que entram numa sala de aula para aprender História, muitas vezes, em uma perspectiva antiga de leitura, de discussão e depois de prova. Uma perspectiva muito afastada desse mundo imagético de que falamos. A imagem nos ajuda muito a aproximarmos esse mundo dos alunos da sala de aula; é por isso que ela tem desempenhado um papel cada vez mais importante na área da História.

*Sobre os professores

adriane-vidal-costaAdriane Vidal Costa cursou graduação em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (1999), mestrado (2003) e doutorado (2009) em História pela mesma instituição. É professora adjunta do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais. Desenvolve o projeto de pesquisa “Dimensões culturais e políticas do exílio latino-americano”. Tem experiência na área, com ênfase em História da América, atuando principalmente com os seguintes temas: História e culturas políticas; História intelectual; Historia e literatura; esquerdas latino-americanas; movimentos sociais na América Latina.

eduardo-franca-paivaEduardo França Paiva possui graduação em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (1989), mestrado em História pela UFMG (1993) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1999), com estudos pós-doutorais na Escuela de Estudios Hispano-Americanos/CSIC, Sevilla (2012/2013) e na École des Hautes Études en Sciences Sociales-EHESS, Paris (2006/2007). É Professor Titular da UFMG e diretor do Centro de Estudos sobre a Presença Africana no Mundo Moderno-CEPAMM-UFMG. É pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, bolsista do Programa Pesquisador Mineiro da FAPEMIG, líder do grupo de pesquisa UFMG-CNPq, co-coordenador da Rede de Grupos de Pesquisa Escravidão e Mestiçagens; co-coordenador do Fórum Permanente Universitário Portugal e Brasil: conexões e problemáticas dos mundos moderno e contemporâneo-FórumPB (Universidade de Évora-UFMG). Foi professor visitante na Katholieke Universiteit Leuven (2006), na Universidad Pablo Olavide-Sevilla (2009 e 2010), na Universidad de Sevilla (2013) e Pesquisador Visitante na Escuela de Estudios Hispano-Americanos de Sevilla (2007, 2009 e 2010). É Investigador Associado ao Centro de História da Universidade de Lisboa. Criou e é o editor da coleção História &… Reflexões (Editora Autêntica, Belo Horizonte). Coordena acordos internacionais de cooperação – UFMG-EEHA, UFMG-Universidad de Sevilla, UFMG-Universiteit Antwerpen. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil colonial e conexões com África, América espanhola e Europa, abordando, principalmente, os seguintes temas: escravidão, história social da cultura, mestiçagens, trânsito material e cultural, História & iconografia.